Este lugar do mundo: Portugal

(Congresso de Intelectuais e Artistas – Abril’ 87)

Ao ser-me perguntado que título pensava dar à comunicação que deveria fazer a este Congresso, cedi à ingenuidade de propor uma reflexão sobre o meu país, na sua relação com o mundo, não apenas este em que vivemos, actual, mas também aquele outro que já não existe e em que não estamos, o mundo a que chamamos passado, ou, com mais pretensão científica, história. Duas vezes imperdoável logo me pareceu, e agora se confirma, a patriótica candura, primeiro, por não poder caber tal reflexão, ainda que breve, nos apertados limites de tempo disponível, segundo, por ser duvidoso que conseguisse eu suscitar aqui interesse suficiente, sendo o mundo tão grande e o país tão pequeno. Deixemos de lado, por óbvio, o primeiro destes motivos, e fundamentemos, se possível, o segundo, uma vez que acabei por não emendar a proposta apresentada, agora, como então, conservando o seu aventuroso título: «Este lugar do mundo: Portugal».

Perante assembleia tão competente e informada seria pelo menos estulto pretender desenhar um quadro geral do mundo de hoje, nos seus complexos e múltiplos aspectos, sejam eles políticos, económicos, ideológicos, culturais, tecnológicos, etc. Limitar-me-ei a observar como, em tudo, quase só lidamos com grandes números, como tudo se conta por milhões e milhares de milhões, quer se trate de dólares ou de ienes, de toneladas excedentárias de manteiga ou de prováveis, se não confirmadas, vítimas mortais de fome, sem esquecer as queixas dos devedores e as ameaças dos credores, igualmente aos milhões. As pequenas quantidades são despiciendas, as estatísticas ignoram-nas – e quanto aos países pequenos, não lhes fica muito mais que tentar negociar bem o seu voto nos organismos internacionais, se não preferiram, mas isso vai sendo raro, aceitar os riscos duma independência incómoda e duma personalidade nacional orgulhosa. Mas a regra, ai de nós, não é essa, a regra é uma servidão forçada aos interesses de parceiros mais poderosos, a regra é a mão estendida e resignada à espera da esmola, a humilhação que, de tão costumada, já se vai tomando como aceitável norma de vida, apenas porque ainda não nos foi infligida humilhação maior. De alguma maneira se poderia, mesmo, afirmar que não há, neste nosso mundo, espaço para os países pequenos, excepto quando pertençam ao clube dos ricos, o que tanto pode acontecer por méritos próprios como por alheias conveniências. A voz dos pequenos países, que as regras básicas da participação democrática ainda permitem que se ouça, é geralmente ouvida com um curioso misto de impaciência e benevolência, muito semelhante à atitude com que os adultos dão atenção às crianças. Os países pequenos são umas crianças. Qualquer representante duma grande potência será sempre escutado com atenção quase religiosa, mas a fala de um país fraco e dependente é o melhor dos pretextos para um passeio higiénico nos corredores, em benefício da circulação sanguínea. Os votos, em geral, já estão contados antes de apareceram no quadro electrónico.

Argumentar-me-ão que este fórum é diferente, que aqui não se debatem moções nem probabilidades de acordo, que não se defrontam potências, que não se aliciam, por persuasão ou pressão não disfarçada, vontades que, deixadas na sua liberdade, distintamente se expressariam. Argumentar-me-ão, enfim, que nesta assembleia somos todos semelhantes, que são iguais os intelectuais e artistas aqui reunidos, todos eles fortíssimas potências, que, em suma, tudo são grandes potências neste congresso de Valência. Pela parte que nos caiba, ao meu país e a mim, muito obrigado.

Infelizmente, a verdade exige alguns retoques no quadro. A indústria cultural do nosso tempo, servida por uma sistemática e obsessiva utilização dos mass media, tendo como objectivo final estratégias de prevalência ideológica que tornam primário e anacrónico o recurso a acções mais explicitamente directas, tem vindo a reduzir a mero papel de figurantes os países pequenos, condenando-os a um maior ou menor grau de invisibilidade e inexistência. Há alguns anos, seis altos funcionários do Mercado Comum precisaram de meia hora para descobrirem, numa espécie de jogo de salão, que país era o meu, apesar de todos os dados que lhes ia fornecendo, com uma paciência cada vez menor e uma indignação cada vez maior. Disse-lhes tudo, excepto o nome de Portugal: população, origem da língua, religião, superfície territorial, regime político, falei-lhes da antiguidade das nossas fronteiras, fui ao ponto de revelar que a ocidente e a sul tínhamos o oceano como vizinho. Inútil: durante meia hora nada disto foi suficiente para que conseguissem ver Portugal. No mapa duma Europa que é, precisamente, o seu campo de trabalho, esses funcionários, de cuja competência técnica não me atrevo a duvidar, pura e simplesmente, não viam Portugal. Ou eles eram cegos, ou Portugal não existia para eles.

Tenhamos, então, a honestidade de reconhecer que não sabemos ver os pequenos países, tenhamos a franqueza de confessar que, em rigor, não os queremos ver. É que a entrada desses países no nosso mapa mental obrigar-nos-ia a uma mudança radical nos nossos modos de relação, sem contar que inevitavelmente teríamos de modificar a carta geral do mundo, no que diz respeito à cultura: tornar-se-ia claro como as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo de evidenciação e ocultação que teve artes de se impor como fatalidade inelutável, contando com a resignação, quando não a cumplicidade das próprias vítimas.

Não está nas minhas intenções fazer opor ao chauvinismo das grandes potências um chauvinismo dos pequenos países, unidos nessa atitude por um legítimo direito de fazerem ouvir a sua própria voz, e, quem sabe, menos nobremente, por justificado despeito de quem foi menosprezado uma e muitas vezes. Mas talvez que este Congresso, que é de intelectuais e artistas, e todos iguais, como já ficou dito, devesse iniciar aqui, para desenvolvimento e aprofundamento ulterior, um debate sério sobre as culturas dos países pequenos. Porventura se viria a concluir, tirando daí todas as consequências, que em definitivo não há culturas grandes nem culturas pequenas, que todas elas respondem ou aspiram a responder à dimensão própria do homem e, por aí, necessariamente se igualam.

Vai para dois anos realizou-se em Madrid um congresso (sabeis como não faltam congressos no mundo) sobre um tema de grande interesse – «O Espaço Cultural Europeu» –, onde, aproveitando a oportunidade, dei conta de algumas destas preocupações. Hoje pergunto-me se terá valido a pena. Bem sabemos o que são, geralmente, congressos e mesas-redondas, simpósios e colóquios: não se pode evitar ir lá dizer alguma coisa, mas pode-se sempre simular que nada se ouviu. E assumindo todos os riscos de mais uma vez ser mal compreendido, permitam-me que repita algumas das minhas palavras de então, graças às quais, porventura, poderei justificar, enfim, e já vai tardando, o título desta comunicação. Disse eu, perante a indiferença e os bocejos de alguns grandes senhores e damas da cultura europeia, dessa que do lado de lá dos Pirenéus teima em nos dar lições exclusivas: «Em oitocentos e cinquenta anos de existência nacional não conseguimos ser um país rico (somos hoje, até, o país mais pobre da Europa), mas fizemos uma cultura. Por ela, e só por ela, queremos ser identificados, não pelo saldo da conta bancária ou pelas reservas de ouro. Neste lugar em que nos encontramos reunidos, nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, poderá arrogar-se uma voz mais alta. E precisamente porque aqui tratamos de cultura, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, pode propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas não são melhores nem piores, não são mais ricas nem mais pobres, são, simplesmente e felizmente, culturas. Nisso se valem umas às outras, e é pela diferença que se acharão justificadas.» E acrescentava, com a força possível e uma convicção absoluta: «Não há, e espero que não venha a haver, uma cultura que pretenda impor-se como una e universal. A Terra é única, mas o homem não. Cada cultura é um universo: o espaço que as separa é o mesmo espaço que as liga, como o mar, aqui na Terra, separa e liga os continentes.»

Curiosamente, à medida que vou falando, tem vindo a formar-se em mim a ideia de que, no futuro, em qualquer congresso para que seja convidado, poderei repetir sem alterações este discurso, porque sempre estará adequado, por mais diversos que sejam os temas e as matérias. A sua infinita repetição não lhe retirará um átomo de pertinência e de verdade, quiçá porque esta deveria ser a base consensual de todas as discussões.

Mas é tempo, agora, de lembrar-me de que este Congresso de Intelectuais e Artistas se realiza cinquenta anos depois do II Congresso de Escritores Antifascistas em Defesa da Cultura. E que alguma estranheza deveria causar não ser aqui feita uma explícita referência ao congresso de 1937, e desde logo a este, que tem certamente muitas e boas razões para não se apresentar como seu continuador, embora, por outro lado, não possa negar a qualidade de seu irrecusável herdeiro. Mas tenho de confessar que experimento algumas dificuldades em avançar no tema, não tanto por embaraços do meu próprio pensamento, mas por tantas terem sido as cautelas e reservas que rodearam e informaram o documento fundador deste encontro, subscrito por mais do que respeitáveis figuras de intelectuais. São eles que me asseguram que o congresso de 1937 foi «um acontecimento de alcance mundial, por muita razões e alguma sem-razão». Ora, eu julgava conhecer algumas das razões dessa importância, admitia humildemente vir aqui aprender outras, mas agora o que sobretudo espero é que me seja explicado em que consiste a «sem-razão» da importância de um acontecimento em geral e daquele em particular. Como quer que seja, estou de acordo que uma reflexão crítica sobre o passado, se aqui vai ser feita, só terá pleno sentido se se abrir ao futuro. Mas não creio que essa abertura venha a ser possível e plenamente útil se não esclarecermos, de uma vez para sempre ou ao menos pelo tempo de um acordo conjuntural, o que se me afigura ser um preconceito de fundo, latente na forma e no espírito do documento a que me estou referindo: o de que os intelectuais dos anos 30 cultivaram falsos ídolos, erraram, cometeram enganos funestos, ao passo que nós, intelectuais dos anos 80, iremos definir certezas, colocaremos nos altares verdadeiros deuses e faremos jura solene de consentir que só a verdade saia das nossas regeneradas bocas. Creio que não estou a ser desleal, que para benefício da minha argumentação não estou violentando o texto, aliás rico doutras confirmações. Diz o nosso documento fundador, e crê dizê-lo bem, que é hora de um esclarecimento teórico acerca do papel dos intelectuais e da exacta natureza do seu compromisso. Tanta segurança não pode deixar de suscitar o comentário irónico de que os intelectuais dos anos 30 precisamente não faziam a mínima ideia de qual fosse o «papel dos intelectuais» e a «exacta natureza do seu compromisso». Ora, é mais do que provável que no ano de 2037, talvez nesta mesma cidade de Valência, um outro congresso de intelectuais e artistas venha debater, contra nós, repito, contra nós, os nossos erros, os ídolos falsos que cultivamos hoje, os enganos, acaso mais terrivelmente funestos, que neste mesmo minuto estamos praticando cada um de nós e todos juntos. O que não significa, claro está, que aqui se devam calar os actos, os erros, as injustiças, se não os crimes, tudo mais do que abundantemente sangrento, que é parte do deve-e-haver dos anos 30, no mundo, na Europa, e aqui, em Espanha e na Península Ibérica. Mas nunca o deveríamos fazer de um ponto de vista, também esse autoritário, de intelectuais a si mesmos arvorados em juízes, senhores, felizmente para eles, duma informação sobre os factos e sua decantação histórica. Porque, queiramo-lo ou não, somos já parte culpada no nosso tempo, e inevitavelmente seremos julgados daqui a cinquenta anos por essa culpa.

Bem mais sábio seria, se me consentem a palavra, examinarmos esses erros que estamos cometendo, e corrigi-los, se para tanto temos a força e a coragem, ainda que a mesma sabedoria nos vá dizendo, como diz, que o erro é inseparável da acção justa, que a mentira é inseparável da verdade, que o homem é inseparável da sua negação. E eu não sei por que maravilhosas razões poderão os intelectuais meus contemporâneos, aqui maravilhosamente congregados, decidir, do alto de uma justiça maravilhosa e certamente abstracta, sobre verdades absolutas que os intelectuais dos anos 30 estupidamente ignoravam e que os intelectuais do século XXI respeitosamente deverão acatar.

Ressalvando o respeito que devo a todas as opiniões em contrário, parece-me que muito mais necessário que «um novo enfoque pluralista, mas teoricamente coerente (este mas disfarça, desde logo, um mundo de dificuldades), das relações entre política e cultura, tecnologia e valores morais, ciência e complexidade, compromisso e solidão criadora», mais urgente que toda esta aparente urgência seria um exame rigoroso do estado actual do mundo, e também o lugar, a parte, a culpa ou a responsabilidade que nele têm os intelectuais de hoje, meus senhores, de hoje. Afinal, os intelectuais dos anos 30 tinham muito menos dúvidas do que nós, que aparentamos tantas certezas. Graças a elas, suponho eu, é que nos reunimos em congressos para definirmos «espaços culturais» e «fundar uma estratégia do fazer intelectual». Quando, se me permitem uma opinião discordante, melhor faríamos se proclamássemos a necessidade duma insurreição moral dos intelectuais, sem distinção de alvos ou de épocas, e sem hierarquização absolutória ou condenatória dos crimes, e de quem os praticou ou está praticando.

Sob pena, perdoai-me a banal metáfora, de lançarmos fora a criança no mesmo movimento com que nos dispomos a despejar a água suja do banho.

José Saramago

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