Algumas provas da existência de Herbert Quain

Todos conhecemos aquela pintura de Magritte que representa uma maçã e em que ao mesmo tempo se nos diz: «Isto não é uma maçã.» Realmente a pintura tem razão, o que Magritte fez não foi uma maçã, mas sim uma representação dela. Não obstante, e apesar da própria evidência e do aviso do pintor, temos continuado a afirmar, quando olhamos o quadro ou quando o recordamos: «Aquilo é uma maçã.» Tal como Magritte, sinto também eu, neste momento, o dever de vos prevenir de que isto não é uma conferência. Não me surpreenderia, porém, que, terminada ela, um de vós, mais severamente condicionado pelo ritual destes acontecimentos literários, diga ao vizinho: «Isto foi uma conferência.» Espero que esse vizinho tenha a coragem de responder: «Não foi uma conferência, foi só a intenção de uma conferência.»

Desafiando o vosso mais do que fundamentado cepticismo, chamei a isto que não é conferência Algumas Provas da Existência Real de Herbert Quain. De facto, de acordo com o que Borges permitiu que conhecêssemos deste assunto, a circunstância de Herbert Quain ter escrito uns quantos livros não seria prova suficiente de que tivesse existido como pessoa. Alguém viu um retrato de Quain? Uma amostra da sua caligrafia? O desenho das suas impressões digitais? O passaporte? Uma notícia no Larousse ou na Enciclopédia Britânica? Uma carta de amor por ele escrita ou por ele recebida? Não, ninguém viu, ninguém leu, portanto Borges parece ter razão, Herbert Quain não existiu, tudo foi um puro jogo. Mas como pode ter sido tudo um puro jogo se o próprio Borges afirma ter lido esses livros, e entre eles um que se chama The god ofthe labyrinth? E não só declara que o leu como nos dá precisas indicações sobre a intriga policial que nele se narra… Por outro lado, parece-me dificilmente aceitável que alguém gaste o seu tempo a proclamar a não existência de uma pessoa, ao mesmo tempo que nos vai informando do lugar onde essa pessoa faleceu. Segundo Borges, o escritor Herbert Quain terá morrido numa cidade chamada Roscommon, porém não nos diz de que Roscommon se trata. Ignorava Borges que há dois lugares no mundo com esse nome, um na Irlanda, outro nos Estados Unidos? Tendo em conta que só em dois jornais – The Times e The Spectator –, ambos ingleses, apareceram artigos por ocasião da morte de Quain, somos levados a crer que o Roscommon mencionado é o irlandês. No entanto, basta que nos lembremos do enorme número de irlandeses que vivem nos Estados Unidos para termos de admitir a hipótese de que o irlandês Herbert Quain teria emigrado para os Estados Unidos e por lá se teria deixado ficar. Dir-me-ão que nenhum jornal norte-americano falou da sua obra ou da sua vida, mas isso, como a experiência nos tem ensinado, nada prova…

No meio de tantas e tão sérias contradições, desorientados num labirinto aparentemente sem saída, seria mais cómodo que renunciássemos ao exame do Examen de la obra de Herbert Quain e aceitássemos que, tal como o francês Pierre Menard havia sido uma invenção de Borges, também o haveria sido o irlandês Herbert Quain. Perseveremos no entanto um pouco mais. A invenção de Pierre Menard, de cuja existência real não temos efectivamente provas, aconteceu em 1939, e, pouco tempo depois, em 1941, ocorreu aquilo a que, pela mesma ordem de razões, poderíamos chamar «a invenção de Herbert Quain». Simplesmente, ao contrário de Menard, o autor de The god of the labyrinth existiu mesmo. Não foram achadas cartas de amor, nem fotografias, nem impressões digitais, nem amostras caligráficas, mas há provas consistentes, tanto das objectivas como das subjectivas, da sua passagem pelo mundo e da sua efectiva actividade de escritor. Como passarei a demonstrar.

No final de 1935, isto é, dois anos depois da publicação de The god of the labyrinth, um exemplar deste livro, pelo menos um exemplar, fazia parte da biblioteca de um barco inglês denominado Highland Brigade. Requisitou-o ao respectivo bibliotecário um poeta português, Ricardo Reis, embarcado no Rio de Janeiro, e de quem, curiosamente, durante muitos anos, também se disse que não tinha existido. Ora, não é necessário ter estudado lógica intuicionista para compreender que duas proposições contraditórias não podem ser, ambas, falsas. Como se aplica isto a Ricardo Reis e a Herbert Quain? Aceitando, ainda que com recurso ao paradoxo, que se um deles é autêntico, também o pode ser o outro. Além disso, temos a prova do livro. Ao desembarcar em Lisboa, o poeta Ricardo Reis, por esquecimento, não devolveu The god of the labyrinth à biblioteca. São coisas que estão sempre a suceder, esquecer-nos de devolver um livro…. Foi só no hotel que Reis, ao abrir as malas, deu com The god. Digamos, pois, que a existência material do livro fica claramente demonstrada pelo facto de que, em primeiro lugar, Ricardo Reis o encontrou e, em segundo lugar, o levou consigo para o hotel. Devo dizer já que Ricardo Reis, apesar de o ter tentado não poucas vezes, não chegou a terminar a leitura de The god of the labyrinth: este facto impediu-me de conhecer, sobre o conteúdo da obra, muito mais do que o pouquíssimo que nos disse Borges… As casualidades da vida são uma realidade, bastará dar-lhes um mínimo de atenção para compreender que as pessoas e as coisas estão todas relacionadas umas com as outras, o que acontece, infelizmente, é que nem sempre sabemos onde se encontra o fio que as liga, e algumas vezes temo-lo na mão e só nos apercebemos demasiado tarde. A mim surpreende-me muito que Borges não tenha escrito, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis. Borges não ignorava, certamente, que o poeta português era médico e monárquico, que tinha ido para o Brasil em 1919, e que em 1935, depois de receber a notícia da morte de Fernando Pessoa, regressou a Lisboa. Foi deste pouco que se veio a fazer o romance. Ora, se Borges tinha sido capaz de inventar Pierre Menard e Herbert Quain, está claro que para ele teria sido uma brincadeira de crianças dar vida a Ricardo Reis. Talvez não o tenha feito precisamente por ser tão fácil.

Vejamos agora, em pormenor, as provas suplementares da existência real de Quain. Vejamos o que nos diz O Ano da Morte de Ricardo Reis:

«Deixou a janela aberta, foi abrir a outra, e, em mangas de camisa, refrescado, com um vigor súbito, começou a abrir as malas, em menos de meia hora as despejou, passou o conteúdo delas para os móveis, para os gavetões da cómoda, os sapatos na gaveta-sapateira, os fatos nos cabides do guarda- roupa, a mala preta de médico num fundo escuro de armário, e os livros numa prateleira, estes poucos que trouxera consigo, alguma latinação clássica de que já não fazia leitura regular, uns manuseados poetas ingleses, três ou quatro autores brasileiros, de portugueses não chegava a uma dezena, e no meio deles encontrava agora um que pertencia à biblioteca do Highland Brigade, esquecera-se de o entregar antes do desembarque. A esta horas, se o bibliotecário irlandês deu pela falta, grossas e gravosas acusações hão-de ter sido feitas à lusitana pátria, terra de escravos e ladrões, como disse Byron e dirá O’Brien, destas mínimas causas, locais, é que costumam gerar-se grandes e mundiais efeitos, mas eu estou inocente, juro-o, foi deslembrança, só, e nada mais. Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler, Quem, repare-se, Quain, Quem, escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem. O tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído, um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial, uma vulgar história de assassínio e investigação, o criminoso, a vítima, se pelo contrário não preexiste a vítima ao criminoso, e finalmente o detective, todos três cúmplices da morte, em verdade vos direi que o leitor de romances policiais é o único e real sobrevivente da história que estiver lendo, se não é como sobrevivente único e real que todo o leitor lê toda a história.»

Um pouco mais adiante, Ricardo Reis vai para a cama. «[…] abriu o livro que tinha à cabeceira, o de Herbert Quain, passou os olhos por duas páginas sem dar muita atenção ao sentido do que lia, parecia que tinham sido encontradas três razões para o crime, suficiente cada uma para incriminar o suspeito sobre quem conjuntamente convergiam, mas o dito suspeito, usando o direito e cumprindo o dever de colaborar com a justiça, sugerira que a verdadeira razão, no caso de ter sido ele, de facto, o criminoso, ainda poderia ser uma quarta, ou quinta, ou sexta razões, igualmente suficientes, e que a explicação do crime, os seus motivos, se encontrariam, talvez, só talvez, na articulação de todas essas razões, na sua acção recíproca, no efeito de cada conjunto sobre os restantes conjuntos e sobre o todo, na eventual mas mais do que provável anulação ou alteração de efeitos por outros efeitos, e como se chegara ao resultado final, a morte, e ainda assim era preciso averiguar que parte de responsabilidade caberia à vítima, isto é, se esta deveria ou não ser considerada, para efeitos morais e legais, como uma sétima e talvez, mas só talvez, definitiva razão. Sentia-se reconfortado, a botija aquecia-lhe os pés, o cérebro funcionava sem ligação consciente com o exterior, a aridez da leitura fazia-lhe pesar as pálpebras. Fechou por alguns segundos os olhos e quando os abriu estava Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, como se viesse de visita a um doente, […]»

Tenho uma dúvida, não sei se Borges escreveu isto, ou se eu o copiei. O que é evidente é que este jogo mais se assemelha aos inventos de Borges que a operações de que eu seja geralmente autor. Já agora, e antes que me esqueça, aclaro que Fernando Pessoa não aparece embrulhado num lençol branco, não atravessa as paredes, bate à porta como faria qualquer mortal e, se lha abrem, entra.

Depois do encontro com Fernando Pessoa, «[…] abriu The god of the labyrinth, leu página e meia, percebeu que se falava de dois jogadores de xadrez, mas não chegou a concluir se eles jogavam ou conversavam, as letras confundiram-se-lhe diante dos olhos, largou o livro […]»

Mais tarde retomou a leitura, sentou-se na cadeira onde estivera Fernando Pessoa, com um dos cobertores da cama tapou os joelhos, e pôs-se a ler, começando outra vez da primeira página:

«O corpo, que foi encontrado pelo primeiro jogador de xadrez, ocupava, de braços abertos, as casas dos peões do rei e da rainha e as duas seguintes, na direcção do campo adversário.»

Devo notar que as palavras que acabei de ler não são referidas por Jorge Luis Borges no seu Examen de la obra de Herbert Quain, mas podem ser lidas no Ano da Morte de Ricardo Reis, o que é mais uma prova da existência de The god of the labyrinth e, portanto, do seu autor, isto é, graças à leitura feita por Reis ficámos a saber algo mais do conteúdo do livro de Quain. Prossigo:

«Continuou a leitura, mas, mesmo antes de chegar ao ponto em que deixara a história, começou a sentir-se sonolento. Deitou-se, leu ainda duas páginas com esforço, adormeceu na clareira de um parágrafo, entre os lances trigésimo sétimo e trigésimo oitavo, quando o segundo jogador reflectia sobre o destino do bispo.»

Tereis observado que toda a minha preocupação, até agora, tem estado centrada na apresentação e defesa das provas da existência real de Herbert Quain, e que, para alcançar esse objectivo, me tenho servido de um romance publicado em 1984 com o título de O Ano da Morte de Ricardo Reis. É tempo, portanto, de me antecipar a alguma dúvida que se esteja formando no vosso espírito sobre a existência real, não de Herbert Quain, mas de Ricardo Reis. Se não o fiz até agora foi por pudor de introduzir factos e circunstâncias da minha vida pessoal numa demonstração que está obrigada a respeitar, pelo menos, os limites de uma aceitável verosimilhança literária. Embora temendo que não ireis poder reprimir a incredulidade, arrisco-me a ler uma passagem de O Ano da Morte de Ricardo Reis em que se descreve um episódio da viagem que Reis fez a Fátima para encontrar uma rapariga de quem se julgava enamorado. Ei-la: «Ricardo Reis baixou a vidraça, olhou para fora. Uma mulher idosa, descalça, vestida de escuro, abraçava um rapazinho magro, de uns treze anos, dizia, Meu rico filho, estavam os dois à espera de que o comboio recomeçasse a andar para poderem atravessar a linha, […]»

Ora, por mais incrível que vos pareça, aquele rapaz de treze anos que desceu do comboio na estação de Mato de Miranda em 1936, era eu. É verdade que hoje, passados tantos anos, me será impossível recordar se um senhor com cara de médico e de poeta esteve a olhar para mim quando eu abraçava a minha avó, mas se Ricardo Reis afirma que me viu da janela do comboio, quem sou eu para atrever-me a dizer o contrário? Se eu estava onde Ricardo Reis diz que me viu, isso só pode significar que Ricardo Reis existiu de facto, uma vez que eu estava ali, de facto, naquele dia. Salvo se, a par das dúvidas sobre a existência de Quain e Reis, começássemos a ter também dúvidas sobre a minha própria existência. Espero que não me obriguem a apresentar provas dela. Como quer que seja, creio ter deixado claramente demonstrado que há, ou pelo menos houve-a quando eu tinha treze anos, uma relação directa e quase visceral entre Borges, Herbert Quain, Ricardo Reis e eu próprio.

Adiante. Chega um momento em que Ricardo Reis debate consigo mesmo se deve continuar em Lisboa ou regressar ao Rio de Janeiro. Faltou-me dizer que Reis tem uma ligação mais carnal do que sentimental, o que não deve surpreender-nos, com uma criada do hotel onde se encontra hospedado. Fraquezas da carne… Ela chama-se Lídia, que, como sabeis, é o nome de uma daquelas incorpóreas criaturas que serviram de musas e pretextos a Reis em algumas das suas odes. Esta informação era indispensável à compreensão do que se segue:

«E até poderia pôr Lídia como empregada, a atender os doentes, Lídia é inteligente, desembaraçada, em pouco tempo se faria capaz, com algum estudo deixaria de cometer erros de ortografia, livrava-se daquela vida de criada de hotel. Porém, isto nem é sequer sonhar mas simples devaneio de quem se entretém com o pensamento ocioso, Ricardo Reis não irá procurar trabalho, o melhor que tem a fazer é voltar ao Brasil, tomar o Highland Brigade na sua próxima viagem, discretamente restituirá The god of the labyrinth ao seu legítimo proprietário, nunca O’Brien saberá como este livro desaparecido tornou a aparecer. Chegou Lídia, deu as boas-tardes um pouco cerimoniosa, retraída, e não fez perguntas, foi ele quem teve de falar primeiro, Lá estive em Fátima, e ela condescendeu em querer saber, Ah, e então, gostou, como há-de Ricardo Reis responder, não é crente para ter experimentado êxtases e esforçar-se agora por explicar o que êxtases são, também não foi lá como simples curioso, por isso prefere resumir, generalizar, Muita gente, muito pó, tive de dormir ao relento, bem me tinhas avisado, o que valeu foi estar a noite quente, O senhor doutor não é pessoa para esses trabalhos, Foi uma vez para saber como era. Lídia já está na cozinha, faz correr a água quente para lavar a louça, em palavra e meia deu a entender que hoje não pode haver carnalidades, palavra que, evidentemente, não faz parte do seu vocabulário corrente, duvida-se mesmo que a use em ocasiões de eloquência máxima. Ricardo Reis não se aventurou a averiguar das razões do impedimento, seriam os conhecidos embaraços fisiológicos, seria a reserva duma sensibilidade magoada, ou conjunção imperiosa de sangue e lágrima, dois rios intransponíveis, mar tenebroso. Sentou-se num banco da cozinha, a assistir aos trabalhos domésticos, não que fosse costume seu, mas em sinal de boa vontade, bandeira branca que desponta por cima das muralhas a tentear os humores do general sitiante, […]»

Rebenta então a guerra civil em Espanha. Lídia tem um irmão marinheiro que é militante político de esquerda, comunista, para que fique tudo dito. Ela própria, mais por intuição de pobre do que por conhecimentos de ilustrada, partilha das ideias de Daniel, que é o nome desse seu irmão. Lídia fala a Ricardo Reis do massacre de duas mil pessoas pelo exército de Franco na praça de touros de Badajoz:

«[…] a praça de touros abriu as portas para receber os milicianos prisioneiros, depois fechou-se, é a fiesta, as metralhadoras entoam olé, olé, olé, nunca tão alto se gritou na praça de Badajoz, os minotauros vestidos de ganga caem uns sobre os outros, misturando os sangues, transfundindo as veias, quando já não restar um só de pé irão os matadores liquidar, a tiro de pistola, os que apenas ficaram feridos, e se algum veio a escapar desta misericórdia foi para ser enterrado vivo. De tais acontecimentos não soube Ricardo Reis senão o que lhe disseram os seus jornais portugueses, um deles, ainda assim, ilustrou a notícia com uma fotografia da praça, onde se viam, espalhados, alguns corpos, e uma carroça que ali parecia incongruente, não se chegava a saber se era carroça de levar ou de trazer, nela tinham sido transportados os touros ou os minotauros. O resto soube-o Ricardo Reis por Lídia, que o soubera pelo irmão, que o soubera não se sabe por quem, talvez um recado que veio do futuro, quando enfim todas as coisas puderem saber-se. Lídia já não chora, diz, Foram mortos dois mil, e tem os olhos secos, mas os lábios tremem-lhe, as maçãs do rosto são labaredas. Ricardo Reis vai para consolá-la, segurar-lhe o braço, foi esse o seu primeiro gesto, lembram-se, mas ela furta-se, não o faz por rancor, apenas porque hoje não poderia suportá-lo. Depois, na cozinha, enquanto lava a louça suja acumulada, desatam-se-lhe as lágrimas, pela primeira vez pergunta a si mesma o que vem fazer a esta casa, ser a criada do senhor doutor, a mulher-a-dias, nem sequer a amante porque há igualdade nesta palavra, amante, amante, tanto faz macho como fêmea, e eles não são iguais, e então já não sabe se chora pelos mortos de Badajoz, se por esta morte sua que é sentir-se nada. Lá dentro, no escritório, Ricardo Reis não suspeita o que se está passando aqui. Para não pensar nos dois mil cadáveres, que realmente são muitos, se Lídia disse a verdade, abriu uma vez mais The god of the labyrinth, ia ler a partir da marca que deixara, mas não havia sentido para ligar com as palavras, então percebeu que não se lembrava do que o livro contara até ali, voltou ao princípio, recomeçou, O corpo, que foi encontrado pelo primeiro jogador de xadrez, […]»

Objectareis agora: «Muito bem, aceitemos, à vista das provas apresentadas, que Herbert Quain realmente existiu. Mas falta ainda a prova final. Sabe o senhor José Saramago onde está o livro que ele escreveu?» Tenho resposta para esta interpelação. Em primeiro lugar, recordo que só temos notícia da existência de dois exemplares de The god of the labyrinth, aquele que Borges leu e aquele que Ricardo Reis levou da biblioteca do Highland Brigade. Do primeiro não se me podem pedir contas. Tanto quanto se sabe, não foi encontrado na biblioteca de Jorge Luís Borges. Quanto ao segundo exemplar, esse sim, estou em condições de poder dizer-vos o que lhe sucedeu:

«Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim, ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, É estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera da Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma.»

Creio ter apresentado provas suficientes da existência real de Herbert Quain. Faltou-me, materialmente falando, a prova que nos faria a reconhecer em Quain essa qualidade de autor, isto é, um livro chamado The god of de labyrinth. Lamento a minha insuficiência. E lamento mais ainda que já seja demasiado tarde para chamar a este tribunal as testemunhas mais idóneas: Ricardo Reis e Jorge Luis Borges.

Permita-se-me ainda um último comentário. O facto indesmentível de Ricardo Reis ter tido em seu poder o livro de Quain autorizou-me a vir a Bérgamo participar num colóquio sobre o autor de Ficciones. Suponho ter ficado igualmente demonstrado que Borges não tinha uma informação completa sobre um escritor que ele supôs ter apenas imaginado e sobre o livro que lhe atribuiu. Devemos esperar tudo, principalmente o que nos parecer impossível, quando heterónimos, pseudónimos e similares se põem a viver por sua própria conta. Dividida entre o respeito que deve ao que Borges escreveu sobre Quain e o testemunho definitivo de Ricardo Reis, a cidade de Bérgamo não saberá, neste momento, o que pensar. Dêmos tempo ao tempo, esperemos que as paixões acalmem. A verdade acabará por triunfar.

José Saramago

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