Sobre Aníbal Lemos

(4 de Setembro de 1999)

Ora do natural, ora inventando, muitos artistas do século XVIII fizeram vida e ganharam fama a pintar ruínas. Foi o caso de Giovanni Battista Piranesi e de Giovanni Paolo Panini em Roma, cidade onde, naquele tempo, como é sabido, elas não faltavam. Nem faltam ainda hoje. No caso do parisiense Hubert Robert, contemporâneo daqueles pintores, prevaleceu, sobretudo, a invenção, decerto por ser a terra dos franceses menos rica que a dos romanos em abóbadas derrubadas, arcos suspensos, colunas partidas e outros fragmentos. Sob a influência dos dois grandes mestres italianos, Hubert Robert dedicou-se a romantizar a antiguidade, idealizando ruínas vaporosas de velhos edifícios, sempre mais preocupado com o pitoresco e a poesia do que com a exactidão. Tal como uma chama brilha com maior intensidade no preciso instante em que se vai extinguir, assim, sobrepondo ainda melancolicamente às interrogações do presente as imagens de um passado fantasioso, começava a despedir-se o gosto por um neoclassicismo já fora de época numa Europa à beira da Revolução Industrial. Ainda houve tempo, porém, para que, não poucas vezes, a nova burguesia fabril emergente fizesse adornar os seus jardins de falsas ruínas copiadas ou inspiradas em pinturas menores, como se uma arte já tão empobrecida pudesse esperar sobreviver imitando, até à exaustão, uma arte que, ela mesma, havia sido imitação.

Mudaram os tempos, mudaram as ruínas. Os restos do passado que chegaram até nós tornaram-se em peças de museu dignificadas pelo espaço que as acolhe, pela luz que as valoriza, pela contemplação respeitosa do visitante. Aqueles outros que, pelas suas dimensões e pela sua irremovível integração urbanística, as salas de exposição não teriam vocação nem capacidade para receber, esses são-nos mostrados como se o lugar em que haviam sido construídos fosse já, ele próprio, ao nascer, um espaço de exibição. Quanto às ruínas do nosso tempo, aquilo que é hoje ruína, exceptuando o que, uma vez mais, possa ser transportado e instalado em museus industriais e agrícolas de novo tipo (máquinas, ferramentas, alfaias e outros utensílios que, por antiquados, deixaram de ter utilidade e aplicação), o mais comum é encontrarem-se ao abandono, sujeitas à acção dos agentes atmosféricos, ao desprezo, à sanha agressiva, que se diria instintiva, com que destruímos o que, ser ou objecto, não se pode defender nem tem quem o defenda. A estes sítios não vão os pintores de agora nem os curiosos. São lugares que parecem assombrados, onde sempre paira um odor de podridão mansa, lugares que a chuva não consegue lavar nem o sol tem força bastante para iluminar, lugares que são como uma antevisão do que a Terra será quando se tiver extinguido a espécie humana ou retirado dela como se deixa cair a pele inútil e ressequida de um fruto, casca de um ovo comido, digerido e eliminado. Hubert Robert não saberia que fazer de ruínas assim. Mas os fotógrafos sabem-no. Sabe-o Aníbal Lemos de um modo superior e particular.

Este mundo de destroços, de materiais que já não podiam mais esconder a sua intrínseca fragilidade, estas anilhas e estas porcas de ferro que a humidade vai lentamente carcomendo, esta luva de trabalho em que nenhuma mão voltará a entrar, esta enxerga que cheira ao primeiro bafo de um corpo morto, esta bota tombada no chão viscoso, estes trapos cuja matéria se confundiu para sempre com a terra, esta espécie de lava negra derramada, estas escorrências, esta irrisória escova de cabelo, esta garrafa, estas latas, estas calças torcidas e esmagadas, estas paredes negras, este lixo – a visão que Aníbal Lemos tem deste sombrio mundo é uma visão misericordiosa. Imagens que uma atenção pouco selectiva talvez só perceba como meros registos documentais, de uma objectividade elementar, são, pelo contrário, momentos de aguda sensibilidade, quase de compaixão, um último e humaníssimo aceno de despedida ao que parecia definitiva e irremediavelmente esquecido.

Aníbal Lemos viu, a nós cabe-nos o dever de olhar. Não olvidemos que as ruínas, quaisquer ruínas, a de ontem e as de hoje, são sempre lugares de memória. O que Aníbal Lemos nos mostra é, pois, o nosso próprio rosto. Tenhamos então a sinceridade de reconhecer-nos nos espelhos que estas imagens são.

José Saramago

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